A Primeira Foto do Felipe

A Dani Picoral é fotógrafa e amiga. E escreveu este texto lindo sobre o nascimento do Felipe, o primeiro filho. A primeira foto, não só aquela que saí da câmera fotógrafica mas também aquela que fica na nossa memória e coração.

mamãe nunca vai esquecer
a primeira vez que te viu
mamãe nunca vai esquecer
a primeira vez que te ouviu

Todo final de tarde, quando Felipe está mamando após o banho, canto para ele. Só que minhas músicas foram todas improvisadas,  inventadas para ele, do jeito que eu já fazia no chuveiro quando estava grávida. Minhas rimas não são lá grande coisa e as melodias às vezes são de músicas existentes, mas ele parece gostar… As palavras acima surgiram uma tarde em que eu olhava ele mamar e chorava de emoção (e cansaço!) lembrando do momento do parto (a gente chora muito nas primeiras semanas!).

Durante toda minha gravidez planejei um parto normal. Quando chegou a 36ª semana de gestação, passei a ver meu médico semanalmente. A barriga crescia muito ainda, Felipe já era um bebê bem grande (ele nasceu com 4kg e 52cm). As semanas foram passando e nada do menino encaixar, nada de dilatação, nada de contração. Chegou a 40ª e o médico recomendou uma cesariana.

Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Durante os nove meses de gestação vamos imaginando muitas coisas —  como vai ser nossa vida depois que o bebê nascer, como é a carinha dele, como vai ser ver todas aquelas roupinhas ganharem vida no corpinho do nosso filhote — e o momento do nascimento do nosso querido filho faz parte desse imaginário. Claro que eu já tinha muitas fantasias. E muitos medos, é claro. Partir para o bisturi não era de forma alguma o meu desejo mas ao mesmo tempo eu não queria arriscar esperar mais tempo e tentar induzir um parto normal só para depois ter que fazer uma cirurgia de emergência (conheço algumas histórias assim). Fundamental é confiar no médico e dar prioridade para o bem-estar do bebê. Eu confiava bastante no meu e em seus 37 anos de experiência.

E lá fui eu com um tremendo frio na barriga para a sala de cirurgia — eu e o meu medo de bisturi. A preparação foi um tanto quanto atordoante, a equipe se apresentando, a anestesista me explicando como seria a anestesia, o Dr. Pedro vibrando (ele é o médico mais animado que já conheci na vida, ama demais o que faz), todos muito simpáticos e atenciosos, um clima muito tranquilo entre eles… mas cadê o Gui? Alguém diz “vamos começar” e eu “cadê o Gui?”. Eu não conseguia ver a porta, ele já estava ali, pronto para entrar.

E então foi tudo muito bonito. De um jeito que eu não poderia ter imaginado. Guilherme, nervoso,  segurando minha mão com a mão direita e a câmera com a mão esquerda, eu olhando nos olhos dele, apertando forte a sua mão mas ao mesmo tempo dizendo “fica calmo para fotografar!”. Expectativa. Não sei o que ouvi primeiro, o barulhinho da câmera – meu velho conhecido – ou o chorinho do meu filhote. Ele veio direto para o meu lado e parou de chorar assim que ficou perto de mim e sentiu meu cheiro. Eu olhava intensamente pro seu rostinho, procurando gravar cada detalhe. Fotografar com os olhos.

Como fotógrafa eu sei o quão maravilhoso é conseguir guardar em imagens momentos especiais e às vezes sinto falta de não conseguir fotografar o que estou vivendo. Dessa vez não me incomodei porque o momento foi tão rápido mas tão intenso que eu o gravei na memória de um jeito que eu acho que não vou mesmo esquecer. O corpinho dele — cordão umbilical pendurado — sendo trazido até mim, a boquinha parando de chorar ao chegar perto do meu rosto, cada detalhe daquele rostinho melecado. Porém teria sido uma tristeza não ter em fotos coisas que eu não poderia ter mesmo visto, como o maravilhamento do meu próprio rosto ao vivenciar esse momento que acabo de descrever. Saber que todas essas imagens lindas são o olhar de um pai emocionado só as torna mais preciosas ainda.

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